Trem das 7

Senhor maquinista. Por favor, entregue esta carta ao senhor que embarcou hoje.

2007, 19 de julho

Me lembro quando, ontém, conversamos sobre o tudo e o nada. E vejo que hoje, você já não está ao meu lado. Não sei onde está, mas onde quer que esteja, você está ganhando o jogo, afinal, descobriu o outro lado da moeda. Você pegou o Trem das 7 hoje, enquanto nós estamos, ainda, esperando o nosso. Quem sabe quando embarcaremos? Não importa.

Mas, sabe; eu fico imaginando em como você deve estar. Tenho a impressão que muitos já fizeram essa mesma pergunta diante duma situação parecida.

Não vou chorar. Só tenho a rir pelas lembranças boas. Claro, você sempre foi meio bravo. Meio? Bastante. Mas isso, é o que fez a gente te amar ainda mais. Esse seu jeito.

Ainda carrego aquela moeda antiga que você me deu. Não caçoe de mim, eu ainda vivo neste mundo do material, hehe.

Sabe, eu sempre ouço histórias de super-heróis. Mas, comparando as histórias que contam sobre o que você foi e também o que eu vi, posso garantir: eles são só apenas bonecos ilustrativos, enquanto você, ah, você… indescritível. Mas não fique aí se vangloriando. Você não foi o único super-herói, não, hehehehe.

Tá, você não foi perfeito. Eu admito. Aliás, longe de ser perfeito, como todos nós. Todos nós. Lembro quando você causava tristeza em pessoas que tanto te amavam. Mas sei que somos, todos, assim. Coisas do homem.

Ah, vou parar com esse assunto besta.

Você acredita que me obrigaram a te ver empaulado? Essa palavra nem existe, claro, mas é o que eu penso. Como conseguem colocar as pessoas nessas caixas ridículas? Sei, sei, costume, tradição, né?! Bah. Pra eles. Eu não gosto disso. Por que eu não gosto? Simplesmente porque eu não quero lembrar de você deste jeito. Eu quero lembrar de quando você ainda estava aqui, das coisas boas, dos seus acertos, dos seus erros… Mas… Nada posso fazer quanto à isso. É normal, é uma tradição de grande parte dos homens. Eu só sei que não quero que façam isso comigo.

Chegaram umas mulheres lá. Nem sabiam seu nome, e foram rezar pra ti. Sabe, eu não gosto muito disso. Ah, sei, sei. Eu sou muito encrenqueiro e enjoado. Sou mesmo. Não gostei, não gostei, e pronto.

A vovó ficou triste pela sua partida. Muito triste. Ela não parava de contar sobre você, a todos que chegavam, repetidas vezes. Aliás, todos os seus filhos ficaram tristes. Todos choraram. Mas nós ainda estamos aqui, e por estarmos aqui, ainda sofremos. Não sei você, se já superou essa fase, hehe.

Eu tenho muitas coisas pra falar pra você ainda. As pessoas costumam achar que um dia reencontraremos nossos entes queridos em outro lugar. Eu vou torcer para que isso seja verdade, e poder te reencontrar, levar algumas broncas e conselhos. Não vou falar pra você descansar em paz, porque descansar, você nunca quis. Só queria saber de trabalhar. E trabalhava, ein. Queria ter toda essa sua disposição. Enfim. E eu também sei que descansar em paz é chato demais. Não tem nada pra fazer. Um tédio. Ou talvez eu não interpretei a frase corretamente. Mas eu posso dizer:

“Te amo, vovô. Seja feliz, onde quer que você esteja.”

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