Recentemente, em Especial: Mensagem de Ano Novo (para lê-la, confira o menu ao lado), disse que mesmo em situações ruins, podemos tirar certas vantagens. Então, alguém veio a mim – a princípio não concordando -, e me pediu melhores explicações. Todo mundo tem uma visão diferente para cada coisa, e por isso, conto uma história.
15 de março, 01:40h da tarde…
O trabalho me esperava, já tinha almoçado e como de costume, cochilado um pouco. E como exige a rotina, estava agora no ônibus que me levaria direto à empresa. “As pessoas são diferentes” – refleti. Algumas olham o mundo pela janela, outras nada notam porque estão com um fone no ouvido e há ainda as que conversam constantemente. Incrível também, como algumas conseguem dormir com o imenso barulho, e duas ou três – incluindo eu -, lêem livros, jornais ou revistas.
- Continue andando, faça tudo o que eu disser! E quero todo mundo sentado! Nada de gritos! Nada de gritos!
Mas todos gritaram. A minha primeira reação foi um rápido olhar que me mostrou pessoas espantadas e um homem alto apontando uma arma em diversas direções. Eu não fazia idéia do porque dele estar ali; ele sequer tinha dado voz de assalto. Pensei estar em um pesadelo. Pensei que aquilo iria acabar logo. Mas não foi bem assim que tudo aconteceu.
Em minutos o ônibus estava cercado por muitas patrulhas e com policiais apontando suas armas. Para não ser atingido por um atirador, o bandido escolheu alguém para ser o seu escudo: eu!
Eu não podia acreditar que tinha escolhido um banco tão próximo da entrada. Não podia acreditar que eu, justamente eu, fui a escolha. “Estava preste a morrer” – era só o que eu pensava. Comecei a me perguntar que pecado havia cometido nestes últimos dias. Tentei justificar a situação.
O tempo passava, havia um negociador e um bandido. Não conseguia prestar muita atenção – os soluços eram fortes demais -, mas algumas frases sempre pareciam ser claras.
-… e ela morre!
Talvez ele tinha dito que se os policiais não atendesse suas exigências, eu morreria. Ou talvez, se eles invadissem o ônibus, eu morreria.
Um bandido nada tem a perder. Mas eu não, afinal, tinha filhos e um marido. E um trabalho que me ocupava quase que o dia todo: dentro e fora dele. Pronto. Bastou esse pensamento para que eu me desesperasse mais. Me dei conta de minha vida.
Pensei em prometer algo a Deus em troca de minha vida. Mas fui ensinada que fazendo isso, estaria tentando comprá-Lo. Sim, havia o pedido. Eu tinha de pedir uma nova chance. Não sabia se aquilo era castigo, acaso ou azar. Não importava agora.
E o mundo se calou a minha volta, porque eu estava pedindo. Não era como o “por favor” desesperado e impensado. Era maior que isso.
Mas houve o disparo que me trouxe de volta. A arma empunhada para cima, rapidamente voltou a minha cabeça. O pranto das pessoas se transformou em gritos, os policiais e o negociador ficaram mais assustados, mas foi só um tiro para mostrar que ele – o bandido – não estava brincando.
Engoli a seco o grito, o desespero, as lágrimas e resolvi voltar ao meu pedido. Desta vez, pedi também por todos nós, reféns. E algo mais foi mostrado: o valor que a minha vida tinha.
Eu não sei o que aconteceu antes de eu voltar à situação, mas pouco a pouco vi os reféns serem libertados. Até ficar eu e ele.
O negociador conversou mais com o bandido. Até que este se rendeu. Eu corri desesperadamente, cambaleando até um policial me acolher. Deu tudo certo. Pude respirar.
20 de junho, 00:00h (um ano depois)… o que aconteceu comigo foi uma tragédia. Uma tragédia necessária. Todo mundo tem uma visão diferente da vida. Há quem ache que foi castigo, azar, o acaso ou o destino. Eu prefiro acreditar que tudo isso foi necessário. É difícil dizer, mas, às vezes meu coração diz que foi uma benção. Ela mudou a minha vida. Se hoje eu vivo cada minuto como se fosse o último, é por causa dela. Se hoje eu amo mais o mundo a minha volta, é por causa dela.
Sim, eu tive de aprender com a tragédia. Alguém me disse: “As pessoas não dão o valor necessário a vida. Se tivéssemos apenas 24 horas de vida, iríamos enxergar as maravilhas do nosso mundo.”. Eu poderia ter seguido a mensagem e tudo isso, talvez teria sido evitado. Mas eu não posso reclamar. Nem ouso. Não é todo mundo que sobrevive a isso, e ainda por cima, aprende com ela. Foi um milagre. Demorou um tempo para voltar a andar de ônibus – houve o trauma. Mas foi superado.
Agora tenho de escolher um livro para ler amanhã, enquanto uns olham a paisagem, outros se distraem com o fone de ouvido, outros conversam, outros dormem…
eu copiei num trabalho.
achei massa essa historia!! vlw ae! =)